UMA ENCHENTE PARA CLARA NUNES

UMA ENCHENTE PARA CLARA NUNES

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A atriz Clara Santhana interpreta com maestria e força a cantora Clara Nunes nos palcos cariocas.
A atriz Clara Santhana interpreta com maestria e força a cantora Clara Nunes nos palcos cariocas.
A atriz Clara Santhana interpreta com maestria e força a cantora Clara Nunes nos palcos cariocas.

 

UMA ENCHENTE PARA CLARA NUNES

A cantora Clara Nunes voltou aos palcos através do talento de uma atriz.

POR Andrea Carvalho Stark

Deixa Clarear lança luz a uma das mais importantes cantoras da música popular brasileira: Clara Nunes. Não que ela tenha sido esquecida, como bem comprovou a história que fez esse espetáculo musical de autoria de Márcia Zanelatto com a direção cênica de Isaac Bernat.

O espetáculo estreou em uma pequena temporada no Teatro Café Pequeno, que foi prorrogada. Logo a seguir emplacou apresentações de muita concorrência de público no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, tradicional espaço da nossa música e teatro e que vem ultimamente apresentando temporadas de grandes espetáculos musicais, dos matrizes-Broadway até os brasileiros do gênero.

Um espetáculo modesto se considerarmos os recursos de cena e orçamento que não se assemelham em número aos dos mega-musicais presentes na cidade do Rio de Janeiro atualmente. Modesto também se pensarmos na transição de um pequeno palco para um de proporções maiores, mas nada de modesto tem esse musical. É um trabalho muito bem realizado que resultou em filas imensas, com quase todos os lugares ocupados. Houve  uma “enchente” de público como se diria para grandes plateias que ali se reuniam no passado.

Clara Nunes foi interpretada por Clara Santhana, coincidência de nomes e talvez de uma certa perseverança e insistência. A atriz desconhecida pelo grande público – somente por ser ainda muito jovem – realizou uma façanha para poucos: descobriu que em Clara Nunes encontraria uma expressão muito singular, aquele “algo a dizer” essencial para mover qualquer artista em começo de carreira.  Assim foi feito.  Clara Santhana  nos domina num movimento que caracteriza o enorme palco do teatro nas  diversas vozes do corpo da atriz. Ela se desdobra em outras Claras em um timbre de voz bem similar quando canta. A atriz-cantora é a própria Clara também no corpo. E nos leva a esse encontro.

O repertório levado à cena, que vai desenhando e moldando as diversas Claras, é mesmo o mais conhecido pelo público, e isso cria uma comunicação imediata. Entretanto, a Clara na imagem mais famosa – flores no cabelo, cabelo solto –  aparece mais para o final. Nesse ínterim,  os músicos que estão sempre em cena (Michel Nascimento, Bidu Campeche, Felipe Rodrigues, Lauro Lira)  também atuam como atores em um divertidíssimo intervalo, além de fazerem quase milagre com poucos instrumentos. Prezando pela simplicidade nos arranjos, a música que teve direção de Alfredo Del Penho apresenta-se de forma muito equilibrada durante o espetáculo.

A dramaturgia de Marcia Zanelatto é um caso à parte. Não lemos o texto mas o que se viu em termos de texto em sua realização no  palco é uma desconstrução bem calculada, um moderníssimo experimento passa por ali. Não se sente  a presença daquelas velhas fórmulas de musicais, a concepção aristotélica de começo, meio e fim e todas as implicações que advém disto também não se encontram lá. Fragmentário não. Música como exclusivo texto em diálogo da personagem, recurso quase lírico, também não. O texto possibilita à Clara Santhana criar uma Clara Nunes que ainda está presente na memória afetiva do público carioca e isso é realizado de forma muito inovadora que precisaríamos ler o texto e ver outras vezes o espetáculo para apontar as características desse processo.

O espetáculo resulta de uma cuidadosa condução de tudo que circula ao redor de um belo e corajoso trabalho de atuação: texto, direção, luz (Aurelio de Simoni), direção de movimento (Marcelle Sampaio) , figurinos (Desireè Bastos), cenário (Doris Rollemberg) e músicos.

O público que encheu as filas do Teatro João Caetano, e também do Teatro Café Pequeno, talvez nem quisesse saber de teatro, mas se reencontrar com Clara Nunes. E conseguiu. O que é o teatro além dessa grande ilusão?

Deixa Clarear acaba de realizar uma bem sucedida temporada no Rio de Janeiro. Espero que outras cidades possam ter o prazer de assistir a esse espetáculo, e assim encontrar uma Clara Nunes tão viva no que ela nos deixou.

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