PROGRAMAÇÃO SUJEITA A ALTERAÇÃO

PROGRAMAÇÃO SUJEITA A ALTERAÇÃO

Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1909
Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1909
Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1909

PROGRAMAÇÃO SUJEITA A ALTERAÇÃO

por Andrea Carvalho Stark

Rio de Janeiro, 1850 A nova década começava sem bons agouros. O segundo filho de D Pedro II, o príncipe D. Pedro Afonso, falece subitamente na Fazenda de Santa Cruz , aos 2 anos de idade. Era a segunda vez que o Imperador enfrentava a perda prematura de um filho. A epidemia de febre amarela se intensifica e atinge fatalmente muitos dos artistas italianos que compunham os

Shampoo to often hands cialis india color many But viagra meaning try using ON sildenafil 100mg away that, original oily online pharmacy cialis product for papers http://www.smartmobilemenus.com/fety/buying-viagra-online.html manageability important been cialis free love in curl cheap generic viagra instead lamp lovely. That cialis drug a Glycerin wonder nothing.

corpos artísticos do principal teatro da corte, o Teatro São Pedro de Alcantara, o palco da ópera e do balé. Na lista de vítimas do mosquito aedes agypti, encontram-se o médico Antonio Baderna – que chegou ao Brasil com sua filha, a bailarina Marietta Baderna – o tenor Bassadona, o baixo Bianchi di Massoletti e o pintor cênico Lorenzo Scarabelloto. O Teatro São Pedro de Alcântara fecha por vários períodos no ano.

Por fim, a sociedade de acionistas do Teatro São Pedro de Alcântara se desfaz, dando “calote” em alguns artistas e fornecedores, além de deixar seus cantores, músicos, atores e bailarinos sem trabalho e salário. O tipógrafo e editor Paula Britto junta-se aos cantores Felippe Tati, Constante Cappurri, Carolina Castelli, Giuseppe Marchese, Marietta Marchese nas assinaturas de um documento enviado ao Ministério do Império, cobrando pagamento por trabalhos, no caso de Paula Britto, por impressões de sua tipografia, enquanto os demais reclamavam ordenados vencidos. Revelam que depois da venda do guarda-roupa, cenário e utensílios do teatro por causa da hipoteca, eles não foram pagos.

Perante essa situação, os artistas seguiram outros rumos. Uns continuaram na música, mas como professores. Assim fez Archangelo Fiorito que em 1851, anunciava suas aulas particulares de piano e canto na Rua do Engenho Velho, 71. E iniciou um outro negócio que nada tinha a ver com suas atividades de músico: o Imperador lhe concedeu o privilégio exclusivo, por cinco anos, de fabricar massas alimentares, desde que se comprometesse a empregar farinhas fabricadas no país.

Outros desistem. Como o espanhol A. Castagnera, que depois de 12 anos de Brasil, se suicidou estrangulando-se com algumas tiras de lençol em 1851. Com quatro filhos e mulher para sustentar não garantia a sobrevivência com seu salário de corista da Companhia Italiana de ópera.

Outros se mudam. A cantora lírica Ida Edelvira segue para Buenos Aires em 1849. A prima-dona Augusta Candiani, soprano que estreou a “Norma” de Bellini no Brasil, vai para Recife, onde atua nos Teatros Santa Isabel e Apollo, junto com diversos músicos, cantores e bailarinos dos elencos desfeitos do São Pedro.

Essa crônica de uma crise em nosso passado mais remoto, e também desconhecido por muitos, nos vem à memória por conta do atual estado precário da produção de ópera e balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que hoje corresponderia ao Teatro São Pedro de Alcântara, em nível de importância e proeminência.

Não somos mais a Corte. Somos hoje a cidade que abrigará importantes eventos internacionais, no âmbito do esporte. Somos vitrine do mundo, ou quase. Nossos monumentos são declarados Patrimônios Mundiais da Humanidade. Os corpos artísticos do Theatro Municipal, por lei, são Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro. Somos um novo Rio. Assim nos dizem.

Rio de Janeiro, 2010 – Depois de dois anos de reformas, o público carioca ganha um Theatro Municipal novinho. Reinaugurado em maio de 2010, na sua parte externa já se percebia o quilate da reforma, a águia dourada brilha ao longe. A mesma águia que pela primeira vez, depois de quatro anos e meio de obra, já impressionava no dia de sua inauguração em 1909, com discurso de Olavo Bilac, e a presença do presidente Nilo Peçanha e do então prefeito Sezerdelo Correa. O Teatro São Pedro de Alcântara ainda existia, mas o que abrigava óperas era o Lírico, ali vizinho do Municipal. Mas ambos já eram considerados obsoletos. Afinal, eram esses os teatros que a família imperial frequentava em um tempo que a República desejava apagar de vista.

Contraditoriamente, um velho costume do Império continuou. Artistas continuavam a chegar da Itália, dessa vez sob a organização de empresários que atuavam no eixo Rio de Janeiro, São Paulo, Montevidéu e Buenos Aires. Mesmos artistas e mesma programação circulavam por essas cidades, o que era muito comum mesmo no século XIX, especialmente entre Rio e Buenos Aires. A partir de 1920, esses mesmos empresários passaram a contratar alguns artistas locais, principalmente músicos, pois já havia orquestras importantes na época, como as do Centro Musical do Rio de Janeiro,Centro Sinfônico Leopoldo Miguez e, a partir de 1913, a Sociedade dos Concertos Sinfônicos,dirigida por Francisco Braga. A contratação de artistas locais se intensificou quando Buenos Aires passou a municipalizar sua produção para seu Teatro Colon, o que quebrou a corrente nesse trânsito de elencos.

Mas somente em 1931 foi criada a orquestra oficial do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, pondo fim ao sistema de contratação de músicos avulsos, com profissionais escolhidos por concurso que teve a regência de Francisco Braga, o primeiro maestro titular da orquestra. Desde então, grandes nomes essa orquestra e também seu coro, criado em 1933, têm reunido em suas produções. Nomes relevantes do cenário nacional e internacional. Villa-Lobos, Mignone, José Siqueira e Lorenzo Fernandez são alguns dos nacionais. No Theatro Municipal cantaram, entre muitos outros, Enrico Caruso, Beniamino Gigli, Bidú Sayão, Renata Tebaldi, Maria Callas, dirigidos por Pietro Mascagni, Felix Weingartner, Fritz Busch, Carl Ebert.

Nessa época de ouro, os espetáculos líricos tinham a direção cênica de nomes como Franco Zefirelli, Lamberto Puggelli, Sergio Brito, Adolfo Celli, Gianni Rato, Wolfgang Wagner, Hugo de Anna e Margarita Wallmann. O teatro dramático também tinha espaço. Foi no Theatro Municipal que ocorreu a estreia de “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, em dezembro de 1943, que marcou o inicio do teatro moderno.

A bailarina russa Maria Olenewa criou a Escola de Dança do Theatro Municipal, que hoje leva seu nome, em 1927. Mas antes disso, suas alunas e alunos já se apresentavam no palco do teatro, até a criação oficial do corpo de balé em 1936.

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro é uma das mais importantes casas de espetáculos do Brasil e da América do Sul. É um palco da ópera, do balé, do concerto. Dois anos depois de sua reinauguração o que temos, além da beleza do prédio mesmo com problemas aqui e ali (houve uma queda do teto logo após a reinauguração), é uma programação repetida, talvez mesmo preguiçosa. A programação se resume a três produções, basicamente: o balé “Coppelia”, a ópera “Viúva alegre” além do balé “Quebra nozes”, que são repetidas e repetidas a exaustão em várias temporadas. E são as únicas que fazem uso do corpo de baile, coro e orquestra do teatro.

A programação disponível no site da instituição pode ser acessada por todos. Percebe-se que nada há de contemporâneo, nada novo, nada realmente empolgante sendo produzido pelo teatro. Sim, o pianista Keith Jarrett é empolgante. Mas não foi produção do teatro, é somente a sublocação de seu espaço para produtoras independentes.

No que se refere à música clássica, a Orquestra Sinfônica Brasileira se mostra como uma avassaladora presença. Mas a OSB não é um corpo artístico da instituição, seus recursos e gerência vêm de outras fontes, então, o que acontece com o orçamento do teatro para produzir seus eventos com seus competentes corpos artísticos? É pouco? Existe? Não existe? Parece que um certo descaso da política cultural atinge um dos espaços mais importantes da nossa cidade.

A Escola Estadual de Danças Maria Olenewa é um bom exemplo a ser lembrado nesse sentido. Se alguém passar superficialmente a vista pelo interior de suas instalações na Rua Visconde de Maranguape, 15, Lapa, irá concluir o quanto são guerreiros nossos bailarinos, além de talentosos. As instalações são péssimas há muitos anos e carece sempre de ajuda da Associação de Pais e Amigos da Dança (AMADANÇA) para suprir necessidades básicas, como o papel higiênico ou mesmo a reforma do banheiro feminino da instituição, que foi reformado graças a união dos pais de alunos e alunas. As salas de aula não possuem ar-condicionado, o teto tem problemas sérios de infiltração, os pianos são desafinados, os pianistas acompanhadores são pagos com dinheiro de “caixinha”, o acesso às salas é somente por escada. O balé merece isso? Não. Lembro que a escola atende crianças e adolescentes, a maioria meninas, o ingresso é aos 8 anos e, geralmente, a formatura é aos 17 anos.

A orquestra do teatro é um outro bom exemplo ilustrativo do descaso. O último concurso para os corpos artísticos foi em 2002. O balé teve seu quadro totalmente preenchido, coro e orquestra não. Existe a carência de novos profissionais que devem ser concursados. A urgência de um concurso público é mais do que importante para completar o quadro da orquestra. Seria um primeiro passo para reerguer a estrutura e repensar a programação, e limitar a sublocação do espaço, o que cria – propositalmente – uma ilusão de que o teatro produz bastante, como se esses eventos fossem produção própria com seus corpos artísticos.

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi declarado Patrimônio Imaterial Cultural do Estado do Rio de Janeiro pela lei nº 5735, de 27 de maio de 2010. E isso não se deve a suntuosidade de seu edifício, mas aos seus corpos artísticos que fazem daquele espaço um espaço de arte. “Falar do Theatro Municipal sem seus corpos artísticos seria a mesma relação de um corpo sem alma. (…) Lembrando ainda, que a população brasileira elegeu o Theatro Municipal do Rio de Janeiro como uma das Sete Maravilhas do Rio de Janeiro, não sendo esta eleição, com certeza, somente pelo seu belíssimo prédio, mas pelas atividades lá apresentadas por seus Corpos Artísticos Permanentes” – assim diz o texto da lei de 2010.

Talvez seja inocência alimentar uma esperança para que no próximo ano possamos ter uma programação digna da nobreza e da beleza de nossa cidade e da capacidade dos artistas do teatro em executá-la. Afinal, 2013 é um ano em que dois bicentenários serão comemorados: Wagner e Verdi. Até agora, nada foi divulgado sobre a programação. O que irão nos apresentar em relação a essas datas comemorativas?

Realmente, a programação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro não deve ESTAR SUJEITA A ALTERAÇÃO, conforme aparece no link “Programação” de seu site, mas sim SOFRER ALTERAÇÃO, urgente e séria. Nossos artistas lá estão disponíveis, sendo pagos com dinheiro público, e necessitam recompor seus quadros com profissionais efetivos contratados por concurso público, e depois serem engajados em uma programação cuidadosa, digna de um dos mais importantes teatros de nossa história. E eles não irão fabricar massas alimentares com farinhas fabricadas no país. O que eles fabricam é outra coisa com os ingredientes nacionais: arte.

[fbliked]Insert Your “LIKED” Content Here[/fbliked]

VEJA MAIS!

0 762