A família Ribas esteve em vários momentos presente na história de nossa música. Mas seu acervo ainda aguarda uma revisão pelos músicos contemporâneos.

por ANDREA CARVALHO STARK

Quando buscamos o sobrenome “Ribas” na internet, encontramos imobiliária,  academia de musculação e estúdio de fotografia como alguns dos 25.700.000 resultados localizados em 0,49 segundos. Entretanto, no Brasil império esse nome era comum aos músicos de uma tradicional família portuguesa do Porto.

O primeiro representante dessa família de músicos portugueses que encontramos no Brasil é o maestro João Victor Ribas, da orquestra do Teatro São Pedro de Alcântara, o teatro da ópera inaugurado por D. João VI, onde hoje se ergue o Teatro João Caetano na Praça Tiradentes, centro do Rio de Janeiro. No  Rio de Janeiro, no mínimo, desde 1841, João Victor atuava nos espetáculos da Companhia de balé quando regeu a ópera “Norma” de Vicenzo Bellini, apresentada em 17 de janeiro de 1844, na primeira récita dessa obra em terra brasileira. Esse músico do Porto era “primeiro violino”, também chamado “primeiro rabeca”, o responsável pela regência quando a figura do maestro como conhecemos hoje ainda não existia. Na orquestra do Teatro São Pedro de Alcântara, Ribas  dividia os trabalhos com o segundo-violino José Joaquim Goyana. Todos dirigidos por Cláudio Antunes Benedicto, um trompista ex-aluno do Padre José Mauricio Nunes Garcia. Na estreia da ópera “Norma”, que trazia o soprano Augusta Candiani no papel título,  sendo a companhia composta por oito cantores e com pouco tempo de ensaio, diversas dificuldades tiveram de ser vencidas por João Victor Medina Ribas e seus músicos que no período de algumas poucas semanas assumiram a tarefa de ensaiar uma nova partitura. Sobre essas dificuldades da orquestra, o francês Émile Adêt assim se refere a Ribas em texto publicado dia 01 de fevereiro de 1844 na revista de cultura Minerva Brasiliense: “Todos os nossos elogios devemos ao Sr Ribas e seus companheiros pelo modo com que desempenharam a música da orquestra, a alma da ópera, sem a qual não haveria cantores nem apareceria o gênio do compositor, por mais sublime que fosse. Certamente poderíamos fazer algumas censuras; porém pouco justo seria, considerando as dificuldades imensas que venceram. Foi a Norma, pelo lado da música, desempenhada de modo assaz satisfatório”.

Em 1845, Ribas apresenta uma composição alegórica de sua autoria, com números de dança, para os Imperadores. Essa obra do maestro trouxe o mito de Pigmalião à Corte de D Pedro II,  com toques de uma certa cor nacional. A cantata alegórica intitulada “O templo da glória ou O novo Pigmalião”, foi  dedicada a Imperatriz Thereza Christina para homenagear o nascimento do príncipe Afonso. Foi apresentada no Teatro São Pedro de Alcântara, com dança coreografada por Luiz Montani, dirigido por Francisco York, dois importantes nomes do balé na época, e compunha-se de várias peças de dança e música apresentadas pelos corpos de balé e de ópera do teatro. Na parte musical, um coro feminino representava “As Musas”, um masculino, “Os Gênios”. Nos papéis principais, Augusta Candiani, a grande diva lírica daquele momento,  representava “A Glória”, o tenor Archangelo Fiorito, “O Templo”; o tenor Angiolo Grazziani, “O Gênio Brasiliense”.

João Victor Ribas continuou atuando como compositor, regente, músico e professor de música no Rio de Janeiro. Em 1850, era músico da Capela Imperial, a primeira instituição empregatícia de músicos e residia na Rua da Ajuda 116. Faleceu no Rio de Janeiro em 1856, aos 35 anos. Pouco antes havia  sido  empresário de companhias líricas, quando perdeu muito dinheiro, passando depois por Buenos Aires, onde foi diretor da orquestra do Teatro de la Victoria de 1853 a 1855.

O barítono Eduardo Medina Ribas, irmão de João Victor, chegou ao Brasil para trabalhar junto ao irmão regente e à companhia de ópera italiana. Cantor português conceituado em vários teatros de Portugal e Espanha, Ribas chegou ao Rio de Janeiro aos 22 anos de idade. Começou cantando em saraus particulares e na Sociedade Filarmônica até estrear no dia 7 de setembro de 1844 junto aos cantores italianos na ópera “Il Furioso” de Gaetano Donizetti, apresentada no Teatro de São Pedro de Alcântara, em espetáculo de gala pelo aniversário da proclamação da Independência do Brasil.

Apesar de sua carreira europeia consagrada e de ser o único barítono disponível na ocasião, o que lhe caberia o papel principal, Ribas fez o menor personagem da ópera: Kaidamá, escravo negro; enquanto Candiani e Angelo Massiani fizeram os primeiros papéis, esse de forma imprópria pois sendo baixo “sua voz não podia chegar às notas agudas” – repara Martins Pena em crítica para o Jornal do Commercio. No mês seguinte, Ribas cantou na estréia da ópera “Torquato Tasso”, dessa vez no papel principal, ao lado de Candiani fazendo Eleonor. Desde então, o barítono atuou constantemente na cidade, e por diversas vezes cantando na Companhia Italiana, sempre colecionando elogios por parte do público e crítica.

Entretanto, a relação entre o barítono e o soprano  era de embaraços. Não somente com Candiani, mas entre os demais cantores italianos pois Ribas, um português, era considerado um intruso na Companhia, uma animosidade que já se evidenciava desde a estreia do cantor. Mas somente Candiani  se envolvera em desentendimentos com Ribas publicamente. Se havia outros, esses eram discretos. Entre Ribas e Candiani, os conflitos tornaram-se públicos. Prestes a assinar um novo contrato com o Teatro São Pedro de Alcântara, a cantora impôs a condição de que Ribas não fosse contratado. Nada disso era declarado oficialmente pela diretoria do teatro ou pela cantora, apesar dos apelos dos folhetinistas que comentavam o caso pelos jornais. Sendo verdade ou não essa queda de braço entre Augusta Candiani e Eduardo Medina Ribas, fato é que o cantor retorna à Portugal no final do ano de 1846, enquanto a cantora assina contrato em março desse mesmo ano, ou seja, estava finalmente “escriturada” até fins de abril de 1847 pela quantia de setecentos mil réis mensais.

Eduardo Medina Ribas voltou ao nosso país na companhia da cantora lírica francesa Rosina Stoltz em 1851. Dessa vez, permanece com mais tranquilidade no meio operístico da cidade. Apresentou-se ao lado da grande Diva francesa, e se engajou na Imperial Academia de Música e Ópera Nacional, um projeto de músicos radicados na cidade do Rio de Janeiro, para implantar a ópera brasileira em língua portuguesa. No espetáculo de abertura da Academia, em 1857, Ribas cantou uma zarzuela, traduzida por José de Feliciano Castilho,  e até 1861 foi cantor desse projeto, criando diversos papéis, inclusive em “A Noite de São João”, de Elias Álvares Lobo, no Teatro de São Pedro em 14 de dezembro de 1860, e em “A Noite do Castelo”, ópera de estreia de Carlos Gomes, em 4 de setembro de 1861, no Teatro Lírico Fluminense. Em 1877, Eduardo Ribas ainda estava no Rio, trabalhando como professor de música, onde residia na Rua do Príncipe 109, Cajueiros. Por essa época, era casado  com Henriqueta Edolo, e teve uma filha, Carolina Augusta Edolo Medina Ribas, que por sua vez, casou-se com o médico João Cipriano Carneiro, criando a descendência da família Ribas Carneiro no Rio de Janeiro. Já viúvo e idoso, o antigo cantor envolveu-se em uma relação amorosa e escandalosa com uma de suas alunas de canto, uma  jovem moça da sociedade carioca chamada Amelia Alambary Luz. A moça engravidou e foi para a Itália, onde seu filho nasceu em 23 de março de 1884. Mas retornou ao Brasil, deixando seu filho aos cuidados de uma família em Nápoles. Com 11 anos, esse filho passou a residir com sua mãe na Ilha de Paquetá, como seu filho adotivo e sem saber de sua origem. Essa é a história do nascimento e da infância conturbada do compositor Glauco Velasquez que não chegou a conhecer o pai, pois em 1883, aos 60 anos, Eduardo Medina Ribas faleceu no Rio de Janeiro.

Velasquez começou a compor em 1902, e conseguiu ser matriculado no Instituto Nacional de Música por influência de Francisco Braga. Sua estreia oficial como compositor ocorreu em 1911, período em que já estava doente, vítima de tuberculose. Diversas personalidades da época enviaram uma petição ao Congresso para que o compositor pudesse ser levado à Europa para aperfeiçoar-se musicalmente e também para tentar uma cura. Mas todos os esforços foram em vão. Glauco Velasquez acabou falecendo prematuramente aos 30 anos em 1914. Seu trabalho, apesar de seu breve tempo de vida, é considerado um dos mais importantes de sua geração. Velasquez foi reconhecido como compositor de relevância, ainda em vida, por Luciano Gallet, Francisco Braga, Xavier Leroux, Darius Milhaud e muitos outros nomes ligados às vanguardas do início do século XX.

 Nicolau Medina Ribas é um outro irmão de Eduardo e João Victor que esteve no Brasil. Em 1848, o jovem de 15 anos esteve por poucos dias na Corte de D Pedro II, logo seguiu para Bruxelas onde continuou seus estudos. No Rio de Janeiro, os anos eram de crise, o jovem músico precisou mesmo seguir outras veredas. E assim fez com muito sucesso. Foi professor em Bruxelas, onde reencontra o Brasil, por intermédio de alguns de seus alunos: Leopoldo Miguez, Francisco Pereira da Costa e Bernardo Valentim Moreira de Sá. Algumas das composições de Nicolau Medina Ribas estão hoje na Biblioteca do Conservatório de Música do Porto.

Há também a irmã mais nova de Eduardo, João Victor e Nicolau, a pianista Judite Riche Ribas. Judite era meia-irmã, pois foi fruto de um segundo casamento de João António Ribas (1799 – 1869) – que era pai também de Hipólito, Teófilo, Carolina e Florêncio. O pai João Antonio Ribas era compositor e tocava violino, violoncelo, trompa, flauta, oboé, fagote, clarinete e clarim. Também foi professor de Augusto Marques Pinto e Francisco Pereira da Costa, além de regente do Teatro de São João (Porto, Portugal) em 1823. Mesmo sem comprovação documental, há relatos de família que indicam que a pianista Carolina Cardoso de Menezes era neta de Judite Ribas.

 Em 1864, aos 18 anos, Judite casa-se com Manuel d´Oliveira e Sá Junior, de 20 anos, um negociante, natural de São Francisco Xavier do Engenho Velho, no Rio de Janeiro, e segue para o Brasil.  No Rio de Janeiro tocou nos salões do Club Fluminense obras de Thalberg, Gottschalk, Herz e Weber, compositores em voga na época.

 Um segundo casamento com o compositor brasileiro António Frederico Cardoso de Meneses e Sousa, filho do Barão de Paranapiacaba, fez de Judite uma mãe de cinco filhos, todos batizados na igreja de São João Batista da Lagoa, Rio de Janeiro, em  1882: Felicia, Laura, Frederico, João e Adolfo. O seu filho Frederico Cardoso de Menezes (1878 – 1958) foi autor de teatro de revista, compondo com Chiquinha Gonzaga a partitura da revista em 3 atos intitulada “Pomadas e Farofas”.

São vários Ribas em diversos  momentos de nossa história que podemos considerar o acervo e a história dessa família como um encontro entre Portugal e Brasil. Não podemos afirmar que os Ribas de hoje fazem parte da mesma linha genealógica dos antigos. Interessa propagar, nesse breve texto, a permanência e produção tão longeva dessa família desde tempos bastante remotos.

Antonio Ribas, um membro da atual família Ribas em Portugal,  criou um SITE reunindo e disponibilizando gratuitamente partituras, material iconográfico e informações biográficas sobre a obra e vida dos seus antepassados, recolhidas em acervos do Brasil e de Portugal. Tive a honra de colaborar com sua pesquisa e de receber algumas partituras que estão caladas, aqui e lá, na esperança de encontrarem seus intérpretes contemporâneos.

 

SITE – Ribas – uma dinastia de músicos do Porto.

Disponível em  https://sites.google.com/site/ribasmusicos2/ 

Contato do site: Ribas.musicos@gmail.com 

Na imagem de topo: Nicolau Medina Ribas. Acervo de António Ribas.

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