ITINERÁRIOS DO COLÉGIO PEDRO II

Uma biografia literária sobre a instituição educacional criada por D. Pedro II

por ANDREA CARVALHO STARK

Capa do livro “Itinerários da Palavra”

São raros os livros no Brasil que se dedicam a esmiuçar a história de uma instituição de ensino para investigar a sua influência fora de suas salas de aula. O Colégio Pedro II, essa instituição centenária criada por D. Pedro II em 1837, guarda em sua tradição muita história para ser resgatada, pois são diversos os nomes da arte, da ciência, da história que se formaram nesse colégio. Parte dessa história e de seus importantes personagens estão agora reunidos no livro Itinerários da palavra – o Colégio Pedro II nas Letras Brasileiras publicado pela editora Oficina Raquel do Rio de Janeiro.

O livro é assinado por três professores de língua portuguesa e literatura do Colégio Pedro II – Ana Cristina Viegas, Jorge Marques e Flavia Amparo – que se reuniram para organizar um volume de ensaios sobre a relação entre o Colégio Pedro II e a história da Literatura Brasileira. São oito ensaios e  entrevistas com Domício Proença Filho e Claudio Cesar Henriques, dois de seus vários eminentes ex-alunos.

Uma biografia literária é o que os autores almejam e conseguem realizar. E começa pelo século de criação do colégio, no tempo em que Pedro II ainda sonhava em tornar-se professor da instituição quando deixasse o governo imperial nas mãos de sua filha Isabel.

 

A tradicional passeata dos calouros do Colégio Pedro II em maio de 1926. Note que há somente meninos. O colégio passou a admitir meninas somente a partir da década de 1930. Fonte: Revista A Careta. 

 

O escritor Joaquim Manoel de Macedo que lecionou no Colégio Pedro II em seus primórdios é o tema do primeiro artigo, de autoria de Ana Cristina Coutinho Viegas. A autora em seu ensaio pretende recompor o cenário educacional do Rio de Janeiro no século XIX a partir de uma das obras de Macedo que vai levando o leitor a um passeio pela cidade, e uma das paradas é o Colégio Pedro II que ele conhecia muito bem.

Álvares de Azevedo é tema do segundo artigo, de autoria de Liliane Machado. O poeta da segunda geração romântica ingressou no Colégio Pedro II em 1845 aos 14 anos, tornou-se Bacharel em Letras em 1847 aos 17, quando seguiu para estudar Direito na tradicionalíssima faculdade do Largo de São Francisco em São Paulo. Sua poesia resulta da leitura literária diversa a que teve acesso no currículo de sua época. Diz a autora: “Esse período em que conviveu no ambiente acadêmico do mais importante colégio do Brasil oitocentista foi irrefutavelmente fundamental para a construção do repertório de leituras que mais tarde mostrar-se-iam essenciais no projeto poético de Álvares de Azevedo. Durante os anos de escola, estudou Inglês, Francês, Latim, Grego com afinco e tomou contato estreito com todo o rol de escritores cujas marcas indeléveis singularizam-no poeticamente: Byron, Musset, Lamartine, Goethe, Victor Hugo, George Sand e muitos outros”.

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Uma turma de meninas do Colégio Pedro II na festa do centenário do colégio em dezembro de 1937. Fonte: Revista A Careta.

O artigo de Flavia Amparo nos leva a uma “viagem sentimental”, conforme indica em seu título. A autora nos revela sobre o clima de reafirmação da nacionalidade que moldou a reforma curricular do colégio em 1857, e sob a contribuição de importantes intelectuais desse período em seus quadros: Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias e o já citado Joaquim Manuel de Macedo. Ainda sobre o século XIX, Joaquim Nabuco é tema do ensaio de Ana Claudia Abrantes Moreira. Manuel Bandeira que foi aluno entre 1897 a 1902, e teve como professores José Veríssimo, Said Ali, Silva Ramos e Antenor Nascentes, também está presente no ensaio de Máxima de Oliveira Gonçalves. A autora estuda a poesia de Bandeira no contexto da literatura infantil, um repertório poético que preza pela simplicidade de menino que descobriu as Letras nas salas do Colégio Pedro II e onde retornou como professor de Literatura de 1938 a 1943.

O professor Jorge Marques se debruça sobre os documentos do concurso para a cadeira de Lógica quando Euclides da Cunha concorreu a uma vaga. Já estamos nos anos iniciais da República quando o Colégio Pedro II era denominado “Ginásio Nacional” em 1909. Buscando uma estabilidade financeira, mesmo tendo obtido sucesso com a publicação de Os Sertões, o escritor acabou aprovado em segundo lugar, porém o presidente Nilo Peçanha escolheu Euclides em vez do filósofo Farias Brito, classificado em primeiro. Euclides ministrou aulas entre 21 de julho a 13 de agosto de 1909, dez no total, tendo sua carreira docente interrompida quando foi assassinado em um conflito familiar. O professor Jorge Marques revela que nesses exames Euclides da Cunha demonstra uma visão antipositivista. Afirma o professor Marques em seu ensaio: “(…) é legítimo afirmarmos que, no alicerce do pensamento desses textos, está a rejeição a conceitos caros à filosofia dominante no Brasil da época, como por exemplo, o conceito de Verdade Única”. Na última parte de seu ensaio, o professor traça um interessante paralelo entre ciência e arte tomando como objeto de estudo a obra Os Sertões.

Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989) é o tema de Ednize Judite Andrade da Silva Monteiro. A autora também faz uma pesquisa em documentos, e em depoimentos diversos de ex-alunos do antigo professor para revelar o trabalho do docente de Língua Portuguesa entre 1940 e 1969 antes dele se consagrar como lexicógrafo.

Mas não somente de pessoas se faz esse livro. As bibliotecas do Colégio Pedro II estão presentes no último ensaio. André Gomes Dantas e Nanci Gonçalves da Nóbrega escrevem sobre acervos e bibliotecas atuais do colégio: são sete bibliotecas escolares, uma histórica, uma digital, um Núcleo de Documentação e Memória (Nudom), mediatecas, salas de leitura e uma biblioteca de pós-graduação.

De forma alguma os autores esgotam o tema e muito mais existe para descobrir e trazer a luz. São vários itinerários que começaram nas salas de aula do Colégio Pedro II. E os próprios autores reconhecem isso, já prometendo um segundo volume. Que venham outros trazendo não somente a literatura, mas a matemática, a ciência, a história e as outras áreas do conhecimento.

O mais importante na publicação dessa obra é o caminho que os autores começam a percorrer. Um caminho de resgate histórico da instituição que já assegurou o seu lugar na história do ensino e da educação do Brasil. Além disso, os ensaios deste volume nos confirmam o encontro da arte da literatura com o ensino da literatura nessa relação muitas vezes menosprezada. Não obstante também é um alerta para o compromisso de todos – alunos, funcionários, professores, pais – para que cada vez mais lutem pela escola e se envolvam em seu cotidiano no respeito à tradição que ela afirma e como legado promissor às futuras gerações.

Uma turma de Ensino Médio do Colégio e duas professoras em foto de 2015,
Uma turma de Ensino Médio do Colégio e duas professoras em foto de 2015.

O livro está disponível para venda no site da editora Oficina Raquel em

http://www.oficinaraquel.com/

OBS: As fotos aqui não são parte do livro. São resultados da pesquisa da autora do artigo. 

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