FRONTEIRAS INFLEXÍVEIS DA MEMÓRIA – uma anticrítica sobre a peça “O homem...

FRONTEIRAS INFLEXÍVEIS DA MEMÓRIA – uma anticrítica sobre a peça “O homem que tinha memória”

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FRONTEIRAS INFLEXÍVEIS DA MEMÓRIA

Uma anticrítica sobre a peça “O homem que tinha memória”

por Andrea Carvalho Stark

Sobre a peça em cartaz atualmente no Rio de Janeiro “O homem que tinha memória” – realização do grupo Os Tapetes Contadores de Histórias, baseado na obra do escritor suíço Peter Bichsel – comecemos por afirmar o princípio de que a peça é sim uma obra de arte. E ser uma obra de arte não é um elogio conforme o sentido muitas vezes que a crítica laudatória moderna se encarrega em estabelecer. Ser uma obra de arte é uma condição do próprio teatro. Uma peça sempre é uma obra de e da arte de artistas – e nisto não reside a dicotomia entre bom e mal – mas sim relações com a cultura e com a história que podemos criar a fim de expandir o seu sentido e presença como uma obra de arte. Portanto, dizer se uma peça é boa ou ruim, ou se um ator é bom ou ruim, não deveria ser a função da crítica de teatro. Sendo assim, depois dessas breves digressões, passemos a pensar nesta anticrítica (que quer ser crítica um dia) o alcance e as relações que podemos aplicar à obra em cartaz no Teatro Poeirinha.

O filósofo alemão Walter Benjamin em um ensaio intitulado “O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov” estuda as relações entre narrativa e memória e como a falência da narrativa fez surgir o romance no período moderno. Algumas de suas reflexões sobre a narrativa presentes neste ensaio valem a pena serem resgatadas aqui. Logo no começo de seu texto, Benjamim nos diz que a arte da narração está em extinção pois parece que nos falta a faculdade de intercambiar experiências. Impactante descoberta é perceber que isso é absurdamente atual.

Entretanto, como em uma contra luz à afirmação de Benjamim, é aberta a luz da plateia no começo do espetáculo. Os três atores em simples cadeiras narram algumas experiências da infância de uma criança, e perguntamos a nós mesmos, sentados em cadeiras frente a eles: serão essas as suas lembranças como pessoas ou lembranças da personagem que em breve iremos conhecer? Logo a plateia é convidada a compartilhar alguma experiência especialmente dessa fase da vida. Um silêncio tremendo. Até que alguém balbucia alguma palavra em sussurro e o ouvido do ator atento logo convida a pessoa a compartilhar sua lembrança em voz alta. Depois vem outro e mais outro. Mas nada muito esfuziante que perca de todos a noção e o sentido de que estamos em um teatro.

Aqui a narrativa encontra-se em uma forma que talvez Benjamin reconhecesse: pessoas desconhecidas intercambiando experiências. É um ator o

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artífice que aperfeiçoa a arte de narrar? É o teatro o último lugar em que se podem intercambiar experiências? E o que é o teatro além dessa sempre realização que é contar uma história?

Na peça encontramos três histórias. Em todas parecem que são pessoas em busca de algum sentido para suas vidas. Um primeiro recorre à memória concreta responsável pela organização do cotidiano. Na segunda, um homem recorre a uma organização de linguagem em um mundo cujas palavras já não dão conta dos sentidos das coisas. Na terceira, um homem tenta organizar o espaço e o tempo. Nos três a organização está presente, já que narrar é mesmo organizar fatos, e a memória é exatamente o contrário, é a desorganização desses fatos. A memória é de uma certa angústia, a narrativa tenta por uma ordem nesse caos.

Primeira história, interpretada pelo ator Edison Mego, é a que dá titulo a peça: o homem que tinha memória. A memória desse homem é concreta, ele decora o movimento dos trens e com perguntas sempre sem respostas. Sua fala é apressada como o trem que observa detalhadamente no seu ir e vir, seu movimento é também apressado e ansioso, desorganizado. Ele parece um homem idoso, bem idoso, cuja pressa é busca por um tempo que ele sabe não mais voltará. Mas o que fica desse homem são seus movimentos apressados, sua fala atribulada, uma certa inocência que foi mesmo perdida.

Na segunda história, a cargo da interpretação de Warley Goulart, um homem velho de casaco cinza inventa um novo vocabulário para nomear objetos e ações cotidianas. Há um trabalho de memória recorrente ao nomear as coisas conforme elas não são conhecidas, um index da língua é todo revisto. Aqui está presente a linguagem, a palavra, a organização que a linguagem realiza quando tudo o mais se perdeu entre significantes e significados. No caso desse homem, parece que ele perdeu a si mesmo. Através da invenção de uma nova língua, que se resume somente a um novo léxico, ele tenta se reinventar.

Na terceira história, um homem passa o tempo inventariando tudo o que sabe e, é claro, se perde em seu próprio caos. Com a interpretação de Cadu Cinelli, a intenção do homem é provar que a terra é redonda fazendo uma viagem em linha reta para voltar ao local de partida. É uma tentativa de organizar o tempo no espaço. Ele consegue? Ele desiste? Não importa, pois o que vale é o caminho que ele traça e os traçados que nascem disto.

Em todas as histórias há um tipo de memória lidando com uma fronteira inflexível. A história é a partida e chegada do homem, do trem, do novo léxico que nomeia sem nada nomear. A fronteira não muda apesar dos movimentos das personagens. Memória que continua presente como memória, só a história contada parece criar uma nova ordem. Há também o trabalho do grupo de contadores de histórias e os recursos cênicos que eles criam para seus trabalhos há mais de uma década. Encontramos os objetos de pano não como adereços, mas como instrumentos que criam imagens e ritmos nas mãos dos atores. Além dos objetos da cena, os objetos de pano atuam muitas vezes como a cena em si, ora os atores os manipulam, ora atuam como intérpretes daqueles personagens, ora são cenários, ou tudo isso ao mesmo tempo. Não há nada confuso nem tenso pois há um equilíbrio que eles manejam muito bem. Aplicam essa forma artesanal de comunicação, conforme nos diz ainda Benjamin naquele mesmo texto, “a narrativa que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão, é num certo sentido uma forma artesanal de comunicação”.

As histórias de Bichsel foram publicadas em 1969. Não é preciso lê-las para perceber que elas continuam retratando o homem de todas as épocas, com suas angústias e necessidades de reinvenção. Mas aqui a literatura é somente um pré-texto para o teatro. Aquelas personagens, mesmo que se não tivessem as palavras do texto do premiado escritor suíço, seriam possíveis de serem criadas a qualquer momento e a pouco custo pois são frutos da mesma observação fina de um artista. Ao certo já apareceram em outras obras do grupo Os Tapetes Contadores de Histórias que usa a literatura como fonte mas que cria personagens de leituras imensas para o espectador de teatro.

Se vale a pena assistir? Sim ou não? Isso não seria jeito de terminar esta anticrítica. Em vez disso, deixaremos uma citação de Benjamin, ainda de “O narrador”, que muito nos esclarece sobre o teatro e a vida: “Muitas coisas que não nos afetam na vida, nos afetam no palco, e para o rei o criado era apenas um ator”.

 

 

O homem que tinha memória

Baseado na obra “O homem que não queria saber de mais nada”, de Peter Bichsel
Adaptação, concepção cênica, interpretação: Cadu Cinelli, Edison Mego, Warley Goulart
Realização Os tapetes contadores de histórias
Supervisão de direção: Isaac Bernat
Teatro Poeirinha – Rua São João Batista, 104 – Botafogo
Temporada: 09 de janeiro até 09 de março de 2014
Quinta-feira a sábado – 21h. Domingo – 19h.
Local: Teatro Poeirinha – Rua São João Batista, 104 – Botafogo – RJ – tel: (21) 2537-8053

Crédito da foto: Renato Mangolin