Bibi Ferreira: dona do palco, da história e da canção

Bibi Ferreira: dona do palco, da história e da canção

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Bibi Ferreira

dona do palco, da história e da canção

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por Andrea Carvalho Stark

A Bibi canta Piaf. Quando a Bibi fez “Gota D´água” um futuro ator gaúcho de 14 anos desbravou a cidade sozinho para assisti-la. A Bibi confessa no Teatro Carlos Gomes que tem alergia a teatro. A plateia ri, provocada pela contradição. “Não é gripe, é alergia”, já respondendo a indagação silenciosa do público quando no escuro do  palco a  artista recorre a diversos lenços de papel, entre uma canção e outra. A Bibi escuta todos os silêncios de seu público. Quando tinha 9 anos, a Bibi  teve sua matrícula no Sion negada porque era filha de atores, filha de Procópio Ferreira. A Bibi lamenta o desaparecimento do samba de breque e a ausência da música de Noel Rosa no repertório dos novos cantores. As notas longas da Bibi são incríveis, uma força da natureza, percebe um músico do meu lado. A Bibi, apesar de uns pigarros alérgicos, não desafina. Não ouvimos o som da sua respiração enquanto canta. A Bibi não recebeu ninguém depois do espetáculo. Nem os jovens de um projeto social que foram assisti-la.  A Bibi desafia a arte e a história e tudo que julgamos que uma pessoa pode fazer da sua vida aos 90 anos. A canção a acolhe. A Bibi entra no palco depois da orquestra fazer o instrumental do refrão “quem sabe eu ainda sou uma garotinha, esperando o ônibus da escola sozinha”, da música de Cassia Eller. São tantas as Bibis que se reinventam e se inventam, e isso é uma verdade, não um clichê.

Clichês não cabem, em nenhum momento, quando se trata de Bibi Ferreira. Tudo nela, a palavra,  se torna novo e imenso. Nem ela se dá conta. Nem pode. Caso contrário, deixaria de ser imenso. Seria o caos do ego, tão comum hoje, dias de muitas celebridades e poucos artistas.

Bibi Ferreira é uma atriz. A cantora tem a atriz, agrega e a afirma em cada nota. Uma voz bem colocada, uma voz profunda e trabalhada. Um cuidado. Bibi entra no palco reclamando das mulheres que falam demais. O público é seu confidente. Se Bibi sabe o que é uma quarta justa  na partitura, não importa. Bibi sabe o que fazer com isso. Faz personagem da voz. O corpo segue. As mãos. O decote. Os braços nus sobem em La vie en rose como se tocassem o homem amado.  Cada música, um texto. Cada texto, a força de dar vida a uma linguagem.  Interpreta.

Bibi Ferreira nasceu Abigail Izquierdo Ferreira,  quatro meses depois da Semana de Arte Moderna, junho de 1922, no registro está o dia 10 de junho.  Filha de Aída Izquierdo, uma bailarina argentina, e  de um dos grandes atores do país: Procópio Ferreira.  Na história do teatro brasileiro, Procópio é considerado o ator que mais lançou autores nacionais, e contam que em 62 anos de carreira, ele fez mais de 500 personagens em 427 peças.

Ator do circo-teatro ao teatro de revista,fazendo tragédias também, mas de uma expressão e comunicação absolutamente populares que marcou a atividade teatral do começo do século XX. Essa forma de comunicação direta conquistando a plateia nos primeiros segundos de um espetáculo, parece ser um talento que sua primogênita herdou, além da diversificação de produções e da enorme semelhança física também. Bibi é parecidíssima com o seu pai.

Com menos de um mês de idade, já estava no palco. Mas a estreia profissional foi  em 1941, como a Mirandolina de Goldoni, na companhia de seu pai Procópio.  Anos depois, já tinha sua própria companhia, Cacilda Becker, Maria Della Costa e Henriette Morineau estavam com ela.

Nos anos de 1960, fez musicais americanos aqui, no gogó, no “metal da voz”, como disse, ou seja, sem microfone:  “Minha Querida Dama” (My fair lady)  com  Paulo Autran; “Alô, Dolly” (Hello Dolly). Fez televisão também. Na Excelsior, programa ao vivo, entrevistava.

bibi e atores corte

Dirigiu Maria Bethania e Clara Nunes em “Brasileiro: profissão esperança”, musical com roteiro e texto de Paulo Pontes e com histórias e canções de Antonio Maria e Dolores Duran. Também dirigiu “Deus lhe pague”,clássico de nossa dramaturgia de autoria de Joracy Camargo,  com Marilia Pera, Marcos Nanini, Walmor Chagas.  Em “Gota D´água” foi a nossa Medeia de Chico Buarque e Paulo Pontes, o “maior musical brasileiro”, revela no palco do Carlos Gomes em meio a suas histórias de canções.

Os anos seguem e Bibi não para. Na década de 1980 está cantando, dirigindo e  atuando. Faz “Piaf – a vida de uma estrela na canção”. Espetáculo premiado, com carreira longa. Depois faz a série “Bibi in concert”, 1 e 2, comemora 50 anos de carreira nos anos 1990. Dirige a “Carmen” de Bizet. O novo século surge e Bibi canta Amália Rodrigues e  é homenageada pela escola de samba carioca Viradouro. Volta ao teatro dramático, como atriz, em “Às favas com os escrúpulos”, de Juca de Oliveira, dirigida por Jô Soares.

Em 2012, inaugura com “Bibi – Histórias e Canções” o outrora chamado Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro. Leva o mesmo espetáculo ao Teatro Carlos Gomes em janeiro de 2013, e em abril vai pro Lincoln Center em Nova Iorque.  Acompanhada no palco por uma orquestra de 21 músicos, sob a regência e direção musical de Flavio Mendes, com quem dialoga contando as histórias. E o seu empresário “pão”, assim ela disse, que lhe acompanha em um dueto no final.

O  Brasil não tem memória, mas quanta memória tem o Brasil. Muitos não conhecem Bibi Ferreira e a sua carreira, atuação sempre ativa nas nossas produções, aqui nesse texto somente brevemente rascunhada,  em quase todos os gêneros, teatro e música principalmente.  Nada mais revelador da história de uma arte qualquer do que seguir os passos de seus artistas. Entretanto, o mais importante é o presente.

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Revista do Rádio, 1960.

O público quer mais, aplaude de pé, e com fé de que a arte motive transformações, e de que ela volte ao palco para um bis. Aos gritos de “linda” e “abençoada”, Bibi responde:  “a beleza está nos olhos de quem vê”.  Não importa, o bravo é uníssono.

Bibi é a dama de nossa cena e melodia. É mesmo uma garotinha de seus 13 ou 14 anos. E isso não é uma contradição irônica nem um clichê.

Bravissima, Bibi. Fez nossa vie en rose por uma noite.
Talvez mesmo para sempre.

BIBI FERREIRA – HISTÓRIAS E CANÇÕES
Direção : João Falcão  

Direção musical e regência: Flavio Mendes

Criação do espetáculo, redação de texto e seleção do roteiro: Bibi Ferreira, Flávio Mendes e Nilson Raman

Orquestra: piano (Itamar Assiere), baixo (Zé Luiz Maia), bateria (Jamir Torres), sax alto e clarinete (Dirceu Leite), sax alto e tenor( Fernando Trocado), sax tenor e flauta em dó (Alexandre Caldi), flauta em sol, dó e flautim(David Ganc), trompete (Aquiles Moraes), trompete (Nailson Simões), trombones (Jonas Corrêa e Everson Moraes), trompa (Waleska Beltrami), violinos (Ricardo Amado, Gabriela Queiroz, Tais Soares, Ladislau Brun, Daniel Albuquerque, Thiago Teixeira), violoncelos (Diana Lacerda, Ronildo Alves).

Produção Executiva:  Cleusa Amaral  (Montenegro e Raman)

PS:  O espetáculo BIBI FERREIRA – HISTÒRIAS E CANÇÕES estava em cartaz no Teatro Carlos Gomes (RJ), desde o dia  15 de janeiro de 2013, em temporada que iria até o dia 27 de fevereiro, se não fosse a inclusão do teatro na lista de espaços culturais  interditados pelo Estado do Rio de Janeiro no surto de responsabilidade do governo pela segurança do público, deflagrado depois da tragédia na cidade de Santa Maria (RS) .
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